Naquela noite de Dezembro de 1889, e como era hábito sempre que o céu se encontrava isento de nuvens, da varanda das traseiras, Alexandre, sentado numa cadeira e enrolado numa grossa manta, permitia-se contemplar a pequena e pouco iluminada vila, ao som de uma orquestra afinada pelos fortes ventos que se faziam sentir. Marcada pela celebração do solstício de inverno, e envolvida por um manto de sombras, a vila parece insignificante, quase se perdendo por entre as colinas e a grande floresta de ciprestes esvoaçantes. A lua “já ia alta” e as estrelas projectavam um brilho singular, uma luz diferente, mais forte, mais pura, como se a terra e os céus tivessem encurtado a distância que os separa. Era a noite mais longa, e sentia-se particularmente triste, excepcionalmente só, “just a bit blue, I guess”, pensou, tentando se convencer. O vento “gritava” de plenos pulmões, quebrava ramos, enquanto ameaçava arrancar os ciprestes, um a um, pela raiz e os projectar para os confins do universo, ao mesmo tempo que deixava cobertas as ruas por um mar de folhas mortas. “Hoje tudo me parece pintado em tons de azul”, pensou. Um azul desgostoso e frio, aprisionado por uma muralha azul-cinza que a força do vento molda a gosto. “Algo vai ter de mudar.”, “algo vai ter de mudar”, repetiu sussurrando, como se o pudessem ouvir. “A luz vai vencer a escuridão”, pensou, “tem de a vencer”, “Renascer, é possível”. “Esta é a noite”, ”Há algo no ar”, sussurra. Alexandre continuou a olhar para o céu e parecia deslumbrado com a multiplicidade de cores. No seu olhar um vazio difícil de preencher. Longe vão os vinte anos, cheios de sonhos, incertezas e anseios a realizar, substituídos agora por uma angustiante desilusão para com as pessoas. Alexandre sempre ouviu dizer que para tudo existe uma idade, momentos concretos onde fora dos quais praticar algo deixa de fazer sentido… disso sempre divergiu, a isso sempre se opôs. Continua a recusar a ideia de muito simplesmente esperar pela morte, “isso não…”, pensa. Quer, agora, voltar a acreditar que a vida, imprevisível e fora do controlo humano, deve ser vivida a cada momento, junto dos que mais nos amam ao som da mais bela das sinfonias, e num mundo repleto pleno de cor. Sabe, e acredita, que não existem idades, apenas mentalidades, e um lutar constante, uma força que nos move e nos faz ir sempre um pouco mais além. Alexandre sabe, que os dias vão voltar a sorrir, cada vez mais longos, cada vez mais “quentes”, no seu olhar, um leve “sol”, um leve “brilho” de esperança… A vida é única e deve ser vivida.
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 17 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de abril de 2012
"Uma Imagem por um texto": Acácia Rubra
- Está uma manhã bonita, não está? – Observou Pedro, enquanto prepara a mesa para o pequeno almoço – Nestes dias, o trabalho com o jardim compensa sempre…
Joana sorri – sim, o meu trabalho compensa sempre…
Pedro responde com um sorriso cúmplice.
O sol da manhã atravessa o pequeno jardim, ilumina-o e dá-lhe um conforto que lhes é afeito. A tradição de tomar o pequeno-almoço "fora de portas", existia desde sempre.
Os sons da natureza, qual orquestra afinada, em tons ligeiros, belos e relaxantes, é a banda sonora de um espaço verde, colorido e repleto de cheiros familiares.
Um miúdo de sorriso bem traquinas, atravessa a cozinha e corre para junto do pai. Pára, ao observar um pequeno exercito de formigas a encobrir uma abelha morta.
- Pai, pai – grita com tristeza na voz.
- Jorge, como sabes, na natureza, nada se perde, tudo se transforma, como por magia, qual milagre, não há desperdícios, apenas formas de vida a gerar e sustentar outras, numa constante renovação.
Recordo-me - continua, pausa na voz, uma voz quente e jovem - Eu teria pouco mais do que a tua idade e os teus avós levaram-me a passear no campo. Na memória ficou uma bela imagem de cogumelos, quais frutos, a sair de um resto de tronco. O avô chamou-lhes parasitas necrófagos, seres que se alimentam da desgraça alheia, sem ter que lutar ou revelar grande esforço…
- Como a fábula da cigarra e da formiga?
- Exactamente como a fábula…
- Recordo-me da avó sorrir, fazer uma careta, para logo de seguida referir que a grandeza está no aproveitamento de recursos. Um tubarão que se alimenta de restos da carcaça de uma baleia já morta, assim como os microorganismos que acabam por a consumir, que aniquilam a putrefacção e acabam por representar pequenos “ecopontos” vivos da mãe natureza.
- Como quando vamos ao vidrão?
- De certa forma, sim. Não te sei dizer se os cogumelos, que se instalaram nos restos do que em tempos tinha sido uma árvore, e dela se alimentavam, seriam, ou não, comestíveis… mas independentemente disso, uma forma de vida já extinta, permitiu o surgimento de outra e a sua subsistência…
- Mas não tens pena da abelhinha?
- Se tivesse viva, teria, mas sabes, a natureza, por vezes, aos nossos olhos, até pode parecer cruel… mas todos os seres servem, por vezes mesmo sem o saber, um propósito superior, e a vida é feita disso mesmo... de pequenos milagres.
- Pai, levas-me ao campo?
Imagem escolhida por Acácia Rubra, do blogue Rubra Acácia.
domingo, 1 de abril de 2012
"Uma Imagem por um Texto"
Poderosa, ameaçadora e ensurdecedora, a tempestade assola a noite no seu escuro véu. Rios percorrem as ruas semi-desertas de Lisboa, mas a tudo ele parece indiferente.
Encostado à parede de um prédio antigo, coberto pela tenebrosa intempérie, um individuo sem idade, sujo e andrajoso, ajoelhado e de pés nus, grita das profundezas da alma.
- O Anticristo está a chegar, estás a chegar, a besta está… – uma falha na voz, a lágrima sobrepõe-se à chuva que lhe percorre o corpo, ao mesmo tempo que vislumbra a indiferença ou a grande repulsa de quem por ele passa – Esperem! Oiçam-me! Já vi a besta da terra… já o vi…
- O caos vai-se instalar, já vi o falso profeta – rouca e profunda como a noite, sua voz projecta-se na escuridão, perdido, seus olhos semicerram-se imediatamente, como os dum animal irritado – Armagedão, o anticristo entrará em Jerusalém e se autoproclamará Deus.
- Oiçam-me, têm de me ouvir! Aqui ninguém é inocente. – Desesperadamente insano, descontrolado, leva as mãos à barba enquanto grita no vazio – Jesus não vai regressar para salvar o Mundo, é tudo mentira.
- Vem, mata-me com as tuas palavras, desafio-te… – sem esconder a decepção, deixa-se cair de exaustão, para a custo se levantar, reprimindo um novo soluço resignado e triste – A batalha já se deu e Deus perdeu-a…
De repente, estremeceu – Pára, estou a arder, deixa-me, deixa-me, não te quero.
Sente, uma vez mais, o abandono dos sentidos, apaga-se momentaneamente para a vida. Ao acordar, sente-se calmo, em seu redor apenas a mais pura das cores. Será que está morto? Está deitado numa cama, envolto em lençóis brancos. Sente-se limpo e a roupa tem um suave odor a lavado.
Está sozinho, a mente ainda distante e a vista algo turva. Pela luminosidade do quarto poderia adivinhar o paraíso não fosse estar de mãos e pés atados, mas o inferno não é tão puro, pensou.
O rosto de um anjo surge sobre si, numa língua perdida, dá-lhe algo para tomar e contínua suavemente seu diálogo.
Que interessa afinal onde está… não há presente ou futuro, o passado a água da chuva levou…
Imagem: Pintura de Pablo Picasso, "Guernica", 1937
Subscrever:
Mensagens (Atom)
