terça-feira, 17 de setembro de 2013

A noite estrelada

Naquela noite de Dezembro de 1889, e como era hábito sempre que o céu se encontrava isento de nuvens, da varanda das traseiras, Alexandre, sentado numa cadeira e enrolado numa grossa manta, permitia-se contemplar a pequena e pouco iluminada vila, ao som de uma orquestra afinada pelos fortes ventos que se faziam sentir. Marcada pela celebração do solstício de inverno, e envolvida por um manto de sombras, a vila parece insignificante, quase se perdendo por entre as colinas e a grande floresta de ciprestes esvoaçantes. A lua “já ia alta” e as estrelas projectavam um brilho singular, uma luz diferente, mais forte, mais pura, como se a terra e os céus tivessem encurtado a distância que os separa. Era a noite mais longa, e sentia-se particularmente triste, excepcionalmente só, “just a bit blue, I guess”, pensou, tentando se convencer. O vento “gritava” de plenos pulmões, quebrava ramos, enquanto ameaçava arrancar os ciprestes, um a um, pela raiz e os projectar para os confins do universo, ao mesmo tempo que deixava cobertas as ruas por um mar de folhas mortas. “Hoje tudo me parece pintado em tons de azul”, pensou. Um azul desgostoso e frio, aprisionado por uma muralha azul-cinza que a força do vento molda a gosto. “Algo vai ter de mudar.”, “algo vai ter de mudar”, repetiu sussurrando, como se o pudessem ouvir. “A luz vai vencer a escuridão”, pensou, “tem de a vencer”, “Renascer, é possível”. “Esta é a noite”, ”Há algo no ar”, sussurra. Alexandre continuou a olhar para o céu e parecia deslumbrado com a multiplicidade de cores. No seu olhar um vazio difícil de preencher. Longe vão os vinte anos, cheios de sonhos, incertezas e anseios a realizar, substituídos agora por uma angustiante desilusão para com as pessoas. Alexandre sempre ouviu dizer que para tudo existe uma idade, momentos concretos onde fora dos quais praticar algo deixa de fazer sentido… disso sempre divergiu, a isso sempre se opôs. Continua a recusar a ideia de muito simplesmente esperar pela morte, “isso não…”, pensa. Quer, agora, voltar a acreditar que a vida, imprevisível e fora do controlo humano, deve ser vivida a cada momento, junto dos que mais nos amam ao som da mais bela das sinfonias, e num mundo repleto pleno de cor. Sabe, e acredita, que não existem idades, apenas mentalidades, e um lutar constante, uma força que nos move e nos faz ir sempre um pouco mais além. Alexandre sabe, que os dias vão voltar a sorrir, cada vez mais longos, cada vez mais “quentes”, no seu olhar, um leve “sol”, um leve “brilho” de esperança… A vida é única e deve ser vivida.

4 comentários:

  1. Alexandre aprendeu, ainda bem!

    Temos , sim , que viver cada minuto ( sem prejudicar ninguém, claro)

    Um abraço

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  2. Amigo, que saudades dos teus textos inspiradores e inspirados.
    O que nos resta senão ter esperança e seguir em frente.
    Algo vai ter de mudar! Assim espero, assim desejo.

    beijinho


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  3. E, da noite, fez dia... com uma só estrela.

    Beijo

    Laura

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  4. Que bom que voltaste!
    Que excelente texto! Alexandre sabe, sim, que outros dias virão...

    Saudades e muitas!


    Beijinho

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