quarta-feira, 25 de setembro de 2013

"A Viagem"


Que noite tão feia. – Comenta Pedro com um ar de enjoo, enquanto coloca loiça na máquina – Sei o que vais dizer, mas já sinto a falta do Verão…

Joana sorri, continua a limpar a cozinha e no meio dum sorriso trocista responde – E ainda estamos no Outono, ou seja, vou ter de aturar essa tua resmunguice por muitos e longos meses… quando até sabes que vais gostar das noites à lareira…

- Sim, mas só na primeira semana… Responde Pedro no meio de sorrisos, observando pela janela o pequeno jardim. Lá fora, a noite escura e fria, tudo desarruma com seus ventos fortes, atinge o pequeno jardim com pesados pingos de água ao mesmo tempo que arranca folhas das árvores.

Um miúdo de sorriso bem traquinas, atravessa a cozinha e corre para junto do pai. Pára com o estrondo do primeiro trovão.

- Pai, pai – grita assustado na voz.

- Jorge, é apenas uma tempestade. Devemos ter respeito, mas faz parte da natureza. Além do mais, existem pára-raios nas proximidades, hastes de metal que atraiem as descargas elétricas atmosféricas, os raios, como este que assustou-te ainda agora, e assim nos protegem. – Continua, pausa na voz, uma voz quente e jovem – E sabes que mais? Está na hora de dormir…

Jorge não parece totalmente assegurado, acena afirmativamente com a cabeça e num tom quase inaudível pergunta – Mas contas-me uma história?

Pedro e Joana cruzam olhares e sorrisos cúmplices, Pedro dá um abraço terno ao filho, agarra-o ao colo e leva-o para o quarto. Depois de o deitar e cobrir com o lençol, começa num tom doce e calmo – O Mar nunca revela todos os seus segredos. Existe algo de místico, que sempre nos atraiu, um magnetismo que nos impele a o contemplar, um chamamento para a aventura, paixão pelo risco e por tudo o que é perigoso.
Sabes, desde muito cedo, ainda antes do tempo das descobertas, já civilizações pelo mar deambulavam. Móbil, mais ou menos subtil, que impeliu a humanidade para grandes feitos. - Eu gosto do mar, refere Jorge, enquanto esfrega os olhos.

- Equipado com cerca de quarenta canhões de bronze, distribuídos por três coberturas, o Príncipe Real era de facto uma esplêndida nau portuguesa de 400 toneladas, uma autêntica fortaleza sobre água, com capacidade de fogo e uma cadência de tiro na ordem do meio minuto. A sua aproximação a um porto era a certeza de fogo e bombardeamento arrasador.

Jorge parece agora mais atento e olha o pai fixamente, como que a tentar visualizar tal acontecimento. Pedro aconchega-o e prossegue - Uma súbita tempestade chegou sem ser vista, e a chuva caía em torrentes, com ventos de força, fundindo-se os céus com as muralhas de água cinzenta e branca a ferver numa névoa de espuma. As águas de Neptuno embatem no casco do navio, e fazem-se ouvir, iluminadas por terríveis clarões, enquanto relâmpagos quebram as espessas trevas e o vento ruge tremendamente.

- Como este que acabou de cair?

- Muito piores, muito piores… Para além que, paixão, terror e medo, nunca podem estar dissociados do Mar. Assim, entre as nuvens, o trovão ribomba com um estrondo ensurdecedor, as grossas gotas de chuva mais parecem granizo, tal não é a violência do embate. Poderosa, ameaçadora e ensurdecedora, a tempestade assola a noite no seu escuro véu. A nau dança nas enormes vagas, cai por entre titanescos vales de água para depois voltar a disparar em direção ao céu cinzento.

- Muito pior do que hoje, boceja o miúdo.

- Monstros marinhos e sereias cruzam os oceanos da fantasia, saindo, agora, das profundezas de um Reino de escuridão.

Jorge sorri. – Isso não existe…

- Pois não, agora fecha os olhos e tenta imaginar, continuando num tom ainda mais baixo - Surge mais uma vaga no horizonte e os dois homens, que se encontram apoiados no leme, sabem que o barco está novamente na iminência de ser lançado para o ar, um vazio cinzento e sibilante, para em seguida cair, uma vez mais, para a profundeza agitada, arriscando ser devorado por um mar sem piedade.
O Príncipe Real luta bravamente para procurar refúgio na pequena baía que surge agora no horizonte. Não obstante a fúria dos elementos, o navio continua a aproximar-se, qual imensa ave marinha, volteando sobre o mar tempestuoso. A bordo, uma equipagem de cinquenta homens movem-se freneticamente na mais perfeita sincronia, nada parecendo falhar, enquanto no seu interior, centena e meia de soldados permanecem imóveis. Os raios explodem junto dos seus mastros e a lívida luz dos relâmpagos reflete-se nas velas enormemente inchadas.
As ondas assaltam-na de todos os lados, lançando-se, de quando em vez, até à própria coberta, mas a verdade é que a Nau não cede e entra audazmente no porto, lançando âncora a duzentos metros da praia. Já a salvo, o príncipe dos mares parece adormecer perante um oceano que espelha grandeza, que parece encerrar em si mesmo o poder de expurgar pecados da alma, tarefa usualmente confinada a Deus.

O Mar, esse, nunca revela todos os seus segredos…

Jorge já não conseguiu ouvir a última frase, mas sonha, agora, com um imenso oceano por explorar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A noite estrelada

Naquela noite de Dezembro de 1889, e como era hábito sempre que o céu se encontrava isento de nuvens, da varanda das traseiras, Alexandre, sentado numa cadeira e enrolado numa grossa manta, permitia-se contemplar a pequena e pouco iluminada vila, ao som de uma orquestra afinada pelos fortes ventos que se faziam sentir. Marcada pela celebração do solstício de inverno, e envolvida por um manto de sombras, a vila parece insignificante, quase se perdendo por entre as colinas e a grande floresta de ciprestes esvoaçantes. A lua “já ia alta” e as estrelas projectavam um brilho singular, uma luz diferente, mais forte, mais pura, como se a terra e os céus tivessem encurtado a distância que os separa. Era a noite mais longa, e sentia-se particularmente triste, excepcionalmente só, “just a bit blue, I guess”, pensou, tentando se convencer. O vento “gritava” de plenos pulmões, quebrava ramos, enquanto ameaçava arrancar os ciprestes, um a um, pela raiz e os projectar para os confins do universo, ao mesmo tempo que deixava cobertas as ruas por um mar de folhas mortas. “Hoje tudo me parece pintado em tons de azul”, pensou. Um azul desgostoso e frio, aprisionado por uma muralha azul-cinza que a força do vento molda a gosto. “Algo vai ter de mudar.”, “algo vai ter de mudar”, repetiu sussurrando, como se o pudessem ouvir. “A luz vai vencer a escuridão”, pensou, “tem de a vencer”, “Renascer, é possível”. “Esta é a noite”, ”Há algo no ar”, sussurra. Alexandre continuou a olhar para o céu e parecia deslumbrado com a multiplicidade de cores. No seu olhar um vazio difícil de preencher. Longe vão os vinte anos, cheios de sonhos, incertezas e anseios a realizar, substituídos agora por uma angustiante desilusão para com as pessoas. Alexandre sempre ouviu dizer que para tudo existe uma idade, momentos concretos onde fora dos quais praticar algo deixa de fazer sentido… disso sempre divergiu, a isso sempre se opôs. Continua a recusar a ideia de muito simplesmente esperar pela morte, “isso não…”, pensa. Quer, agora, voltar a acreditar que a vida, imprevisível e fora do controlo humano, deve ser vivida a cada momento, junto dos que mais nos amam ao som da mais bela das sinfonias, e num mundo repleto pleno de cor. Sabe, e acredita, que não existem idades, apenas mentalidades, e um lutar constante, uma força que nos move e nos faz ir sempre um pouco mais além. Alexandre sabe, que os dias vão voltar a sorrir, cada vez mais longos, cada vez mais “quentes”, no seu olhar, um leve “sol”, um leve “brilho” de esperança… A vida é única e deve ser vivida.