quinta-feira, 4 de abril de 2013

Fico satisfeito por poder começar este texto com “boas notícias”.
Informa o Jornal “O Público” na edição de hoje ter Alcides Santos assinado na passada quarta-feira contrato de trabalho.
Estou a falar de alguém que por desespero decidiu sair da sua zona de conforto e reconhecer perante o Mundo já não ter forma de subsistir a menos que lhe fosse permitido voltar a trabalhar. Escolheu a humilhação pública de assumir a sua insustentabilidade, fragilidade que o estava a consumir, bem sabendo que a “publicidade”, não o livrando do pagamento de impostos, traria à luz do dia um problema com o qual se defrontam inúmeras famílias portuguesas, como em potência, o poderia dar a conhecer a empregadores de boa-fé.
Em Portugal, a grande maioria dos empresários continua a revelar uma ignorância e um amadorismo gritante ao acreditar na mão-de-obra barata e inutilidade de alguém após os quarenta, quando a maturidade e a vontade valem por si só.
Do mesmo modo, um trabalhador que aufira o suficiente para ter as contas pagas é alguém com um problema a menos e estará mais disponível para cumprir o que dele é esperado.
Não é por desperdício que empresas competitivas acabam por presentear os seus trabalhadores com um conjunto de benefícios por forma a conjugar fatores sociais, desportivos ou familiares.  
Pessoalmente, sou dos que acreditam que, perante situações de puro desespero, o Ser Humano
é capaz de tudo, mas Alcides Santos conseguiu optar por uma escolha inofensiva, ainda que penosa.
Uma vez mais o preconceito nacional em relação à idade levou a não ser tido em conta as palavras de Mário Soares quando alertou para o risco de surgirem eventos violentos projetados pela evolução natural do desespero das famílias portuguesas.
Vou certamente lamentar, vou certamente até derramar alguma lágrima, mas não ficarei surpreendido quando uma “alma perdida” agarrar numa arma e arruinar outras tantas vidas.
Não é um cenário que pense ser imediato, mas apenas previsível perante a contínua subida do desemprego e todas as consequências daí decorrentes, isto, num arrastar por três ou mais anos.
A generalidade dos Portugueses não aguenta muito mais austeridade.
Com mais dois ou três anos “em cima”, eu não teria confiança para dizer “ai aguenta aguenta”…

16 comentários:



  1. Temo o que afirmas no antepenúltimo parágrafo. Temo que, toldadas pelo desespero, as gentes se enfileirem atrás de uma qualquer voz. De uma situação caótica passaríamos ao caos.

    Beijo

    Laura

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    1. Não acredito em revoluções… essas, já não se fazem… mas acredito em actos individuais de desespero.

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  2. Um caso com final feliz, mas quantos não o terão?

    Uma noite destas fui jantar a casa de uma amiga e perdi-me pelo caminho, acabando por passar por Arroios, onde às 9 da noite a fila na "sopa dos pobres" era impressionante... E isso, sim, é extremamente preocupante!

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    1. A maioria não o tem… infelizmente… temos 17% de desemprego e 13% dos trabalhadores recebem o salário mínimo… somos um país de miseráveis mas ninguém o quer ver...

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  3. É lamentável chegar a este desespero para conseguir ter trabalho.
    Toda a gente que conheço , incluindo eu própria, tem casos de desemprego na família.
    Até quando resistiremos ?

    beijinho



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    1. Não sei Fê… o ser humano revela capacidade para se superar para lá do limite do razoável… ainda assim…

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  4. Oi Sam
    Obrigada da visita,
    comungo do mesmo pesar em relação a discriminação da idade do trabalhador principalmente em tempos de longevidade saudável _aos quarenta estamos iniciando muitos projetos ainda,e é de fato preocupante o desemprego no seu País.Quero acreditar no espírito forte de desbravadores para que mude o rumo das coisas todas ,
    um abraço

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    1. Lis, aos quarenta e eu não estou muito distante, estamos melhor do que nunca, mais calmos, mais sociáveis, mais disciplinados, mais maduros, e experientes, fazemos menos “vento” mas produzimos ao melhor nível.
      O desemprego vai piorar antes de melhorar… só não sei o que vai restar quando isso finalmente acontecer… Obrigado pela visita.

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  5. Olá Sam,
    Venho retribuir a gentileza da tua visita. Tornei-me, se permitires, seguidor.

    Olha, a saída do Relvas, por si só, já é uma boa noticia. Mas o que descreves também me deixa preocupado. Quem não está? O futuro é algo que me preocupa. E muito.

    Abraço

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    1. Olá JP, fico até bastante agradado, obrigado.
      O Relvas, por si só, não merece um único texto… os maus exemplos, “permissões e omissões políticas” relacionadas com esse senhor, essas, talvez fossem merecedoras de uma tese de doutoramento…
      Abraço e bom fim de semana

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  6. Uma situação muito preocupante não apenas para os jovens mas para os que já perderam o emprego depois de anos no ativo.
    Abraço

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  7. Infelizmente, tenho de concordar em absoluto :(
    Já tinha saudades de passar por aqui, caramba!
    Um abraço e votos de bfds!

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  8. Só mostra como ainda somos um país que precisa muito de evolução. Enquanto noutros países a idade e a experiência são valorizados, aqui pede-se que um jovem de 20 tenha a experiência de quem trabalha há mais anos que os que ele tem, saiba no minimo 3 linguas para além da materna, programação, informática, consultadoria... basta ver os anúncios de emprego. Às vezes pergunto-me? será que as empresas estão a brincar? quem sabe isto tudo?
    E depois é a (falsa) crise de muitos que retribuem o trablho dos funcionários com ordenados de miséria, porque tal como disse o Sr. Belmiro, se não fosse assim, então havia muito mais desemprego! Mas estão a gozar ou quê??? o que acontece é que na realidade muitas pessoas estão numa situação complicada e por desespero aproveitam o que lhes aparece, eu provavelmente faria o mesmo, e isso só faz engordar as contas bancárias desses monstros que nos consomem de todas as maneiras.

    Desculpa o testamento, não me vou alongar mais, apenas dizer que admiro o Sr. Alcides Santos, pela coragem que teve.
    Obrigada pela visita e perrdoa-me a primeira invasão aqui no teu espaço, mas estas coisas revoltam-me.

    Bom fim-de-semana**

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    1. Olá Tanita,
      Em geral quando recebemos um comentário um pouco mais “extenso” é quase sempre um bom sinal… e motivo para agrado.

      Quanto ao teu comentário, eu sou um “jovem” com 18 anos de experiência, curso superior, 2 línguas mais materna, incluindo Português mal falado (risos), informática da ótica do utilizador, muitas formações e até já escrevo segundo o novo/velho acordo ortográfico (brincadeira) e há poucas situações que me causem maior temor do que pensar ter um dia de voltar a enviar cartas… em especial quando o meu País me considera já fora de validade para o mercado de trabalho… e já agora ser forçado a aceitar € 500,00 mês (que para um pequeno empresário é de facto difícil de suportar mais os impostos, mais o seguro de saúde, etc.), apenas porque tal não nos permite ter uma vida independente por melhor gestão que se faça de tal orçamento.
      Bom fim de Semana e Obrigado

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