domingo, 1 de abril de 2012

"Uma Imagem por um Texto"



Poderosa, ameaçadora e ensurdecedora, a tempestade assola a noite no seu escuro véu. Rios percorrem as ruas semi-desertas de Lisboa, mas a tudo ele parece indiferente.
Encostado à parede de um prédio antigo, coberto pela tenebrosa intempérie, um individuo sem idade, sujo e andrajoso, ajoelhado e de pés nus, grita das profundezas da alma.
- O Anticristo está a chegar, estás a chegar, a besta está… – uma falha na voz, a lágrima sobrepõe-se à chuva que lhe percorre o corpo, ao mesmo tempo que vislumbra a indiferença ou a grande repulsa de quem por ele passa – Esperem! Oiçam-me! Já vi a besta da terra… já o vi…
- O caos vai-se instalar, já vi o falso profeta – rouca e profunda como a noite, sua voz projecta-se na escuridão, perdido, seus olhos semicerram-se imediatamente, como os dum animal irritado – Armagedão, o anticristo entrará em Jerusalém e se autoproclamará Deus.
- Oiçam-me, têm de me ouvir! Aqui ninguém é inocente. – Desesperadamente insano, descontrolado, leva as mãos à barba enquanto grita no vazio – Jesus não vai regressar para salvar o Mundo, é tudo mentira.
- Vem, mata-me com as tuas palavras, desafio-te… – sem esconder a decepção, deixa-se cair de exaustão, para a custo se levantar, reprimindo um novo soluço resignado e triste – A batalha já se deu e Deus perdeu-a…
De repente, estremeceu – Pára, estou a arder, deixa-me, deixa-me, não te quero.
Sente, uma vez mais, o abandono dos sentidos, apaga-se momentaneamente para a vida. Ao acordar, sente-se calmo, em seu redor apenas a mais pura das cores. Será que está morto? Está deitado numa cama, envolto em lençóis brancos. Sente-se limpo e a roupa tem um suave odor a lavado.
Está sozinho, a mente ainda distante e a vista algo turva. Pela luminosidade do quarto poderia adivinhar o paraíso não fosse estar de mãos e pés atados, mas o inferno não é tão puro, pensou.
O rosto de um anjo surge sobre si, numa língua perdida, dá-lhe algo para tomar e contínua suavemente seu diálogo.
Que interessa afinal onde está… não há presente ou futuro, o passado a água da chuva levou…

Imagem: Pintura de Pablo Picasso, "Guernica", 1937

29 comentários:

  1. Um texto poderoso e inquietante como o próprio quadro. Gosto!

    Tentei mandar-lhe uma fotografia pelo mail mas não acede. Como hei de fazer? Pode explicar-me?

    Obrigada!

    Beijo

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    1. Olá Acácia, enviei e-mail, (o mesmo do meu perfil), para te contactar (utilizei o que tens no Blogue Acácia Rubra. Beijinho

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  2. Um texto enorme!

    E Picasso é Picasso.

    Abraço

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  3. Essa conversa do "Armagedão" cheira-me a devaneio das testemunhas de Jeová... :)
    De resto, subscrevo o que os seus comentadores escreveram.

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    1. (risos) Obrigado.
      Tendo a minha maneira muito própria de “acreditar”, considero-me muito pouco religioso para os “critérios” tradicionais, talvez por isso o texto…
      Confesso, igualmente, desconhecer o que defendem as testemunhas de Jeová…

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    2. Já eu conheço a "doutrina" delas de gingeira. Aqui na minha cidade já nem se atrevem a chatear-me, ou não fosse eu um "católico fundamentalista intolerante"...

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  4. Olá, Sam. Esta é a minha primeira visita. Gostei do que li. Gostei igualmente da foto ali ao lado do belo sol.
    Embora não seja grande apreciadora de Picasso, aguardo com muito interesse a exibição de alguns dos seus quadros na Galeria de Arte do Ontário, aqui em Toronto, já no próximo mês de maio.
    Abraço e uma ótima semana.

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    1. Olá Catarina. Obrigado pela visita e pelas simpáticas palavras. Boa semana.

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  5. pois ainda bem que regressou!

    por este texto e tudo o mais


    um abraço

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  6. Quando vi o quadro em Madrid fiquei siderada, não o imaginava tão grande! Mas o assombro daquele ataque foi passado à tela de forma magistral por Picasso!
    O teu conto também veicula o assombro de alguém que não acredita na salvação a partir de um Deus que a batalha!

    Abraço

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    1. Olá Rosa dos Ventos, sim, alguém que já não acredita, alguém que pensa ter provas de já nada valer a pena, ainda assim tenta deixar um aviso, mesmo sem conseguir ser credível, e sente o desespero de não ter meios/capacidade para passar a mensagem. Uma batalha perdida.

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  7. Quando vi o quadro em Madrid fiquei siderada, não o imaginava tão grande!
    Mas o assombro e o horror que Picasso nos transmite também passa por este conto!
    O "mendigo", moribundo, não acredita na salvação a partir de um Deus que perdeu a batalha...

    Abraço

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    1. O sentimento que tento transmitir é esse mesmo, de horror, de assombro de desespero por não passar a sua mensagem de engano, e a tristeza de já em nada acreditar. Abraço e bom domingo.

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  8. Como é meu costume não me obrigo a fazer comentários politicamente correctos e o pobre homem está coberto de razão, só que pode não ter palavras melhores para traduzir o seu sofrimento.
    Por vezes, ponho-me a pensar como a espécie humana é tão irresponsável, até nas coisas mais simples como, no mínimo, deixar o mundo tão limpo como o encontrou e, com tantas capacidades e inteligência, é capaz de não mover uma palha para ajudar alguém da sua própria espécie quanto mais de outras espécies ;)...no entanto, espera que algures... exista uma entidade que venha compôr todos os imbróglios e desgraças que ela própria criou... sendo um dos primeiros, uma luta permanente de que o meu Deus é melhor que o teu ;)
    Nos nossos dias, parece que quase nada mudou... andamos uns metros, retrocedemos kilómetros... nem é preciso que Deus venha lutar contra a sociedade humana... nós por cá, conseguimos arrasar com isto tudo... sozinhos ;)
    Grande texto... dá que pensar e faz divagar ;)

    Bjos

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    1. Olá Isa, penso que nesse ponto o Mundo proclama, mas já há muito que se afastou desse caminho…
      O Homem aguarda sempre que o “ar” resolva, mas isso nem sempre acontece…
      Obrigado pelas palavras, grande beijinho e bom domingo.

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  9. Vi-o em Madrid e achei-o brutal!
    (Visitei em Barcelona o seu museu e apreciei, acima de tudo, a sua pintura inicial...)
    O texto encaixa que nem uma luva no "Guernica".

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    1. Olá Rui,tenho a viagem a Barcelona em agenda… pelo menos agenda mental, e espero ter oportunidade de o fazer também, abraço e obrigado

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  10. Texto e pintura muito adequados.
    Gostei muito.

    Boa semana. Bj

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  11. Começaste bem, muito bem!

    (mas aqui entre nós...não gosto de Picasso)

    Um abraço

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    1. Olá São, obrigado. Picasso é complicado de interpretar, igualmente, ou se gosta ou não se gosta… eu tenho dias… esta tela sempre me impressionou… Abraço

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  12. Sam, boa noite!
    Um texto intenso capaz de nos fazer divagar e, que no seu conteúdo revela uma grande verdade, a indiferença do Homem pelo seu semelhante! De facto, não existe Deus algum, capaz de salvar uma humanidade tão inconsciente e egoísta.

    Beijinho,
    Ana Martins

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    1. Boa noite Ana, obrigado. O homem é mesmo assim… um misto de qualidades e defeitos… mas é tão bom, quando nós mais necessitamos, ter alguém que nos estenda a mão, beijinho Ana.

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  13. Tão assustadoramente real...

    muito intenso.
    amei

    Beijo

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    1. Obrigado Bianca, beijo e tem uma óptima noite.

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  14. O homem(humanidade) e a sua loucura, o homem(humanidade) e a sua lucidez: ambas presentes, sempre.
    O teu texto é forte e duro, tal como o é "Guernica"
    Abraço

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    1. Olá Justine, boa noite, loucura/lucidez, bem e mal, amor e ódio, tal como dizes, e bem, faces da mesma moeda.
      Obrigado, é um quadro muito “poderoso”, impressiona e inspira. Abraço

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