Poderosa, ameaçadora e ensurdecedora, a tempestade assola a noite no seu escuro véu. Rios percorrem as ruas semi-desertas de Lisboa, mas a tudo ele parece indiferente.
Encostado à parede de um prédio antigo, coberto pela tenebrosa intempérie, um individuo sem idade, sujo e andrajoso, ajoelhado e de pés nus, grita das profundezas da alma.
- O Anticristo está a chegar, estás a chegar, a besta está… – uma falha na voz, a lágrima sobrepõe-se à chuva que lhe percorre o corpo, ao mesmo tempo que vislumbra a indiferença ou a grande repulsa de quem por ele passa – Esperem! Oiçam-me! Já vi a besta da terra… já o vi…
- O caos vai-se instalar, já vi o falso profeta – rouca e profunda como a noite, sua voz projecta-se na escuridão, perdido, seus olhos semicerram-se imediatamente, como os dum animal irritado – Armagedão, o anticristo entrará em Jerusalém e se autoproclamará Deus.
- Oiçam-me, têm de me ouvir! Aqui ninguém é inocente. – Desesperadamente insano, descontrolado, leva as mãos à barba enquanto grita no vazio – Jesus não vai regressar para salvar o Mundo, é tudo mentira.
- Vem, mata-me com as tuas palavras, desafio-te… – sem esconder a decepção, deixa-se cair de exaustão, para a custo se levantar, reprimindo um novo soluço resignado e triste – A batalha já se deu e Deus perdeu-a…
De repente, estremeceu – Pára, estou a arder, deixa-me, deixa-me, não te quero.
Sente, uma vez mais, o abandono dos sentidos, apaga-se momentaneamente para a vida. Ao acordar, sente-se calmo, em seu redor apenas a mais pura das cores. Será que está morto? Está deitado numa cama, envolto em lençóis brancos. Sente-se limpo e a roupa tem um suave odor a lavado.
Está sozinho, a mente ainda distante e a vista algo turva. Pela luminosidade do quarto poderia adivinhar o paraíso não fosse estar de mãos e pés atados, mas o inferno não é tão puro, pensou.
O rosto de um anjo surge sobre si, numa língua perdida, dá-lhe algo para tomar e contínua suavemente seu diálogo.
Que interessa afinal onde está… não há presente ou futuro, o passado a água da chuva levou…
Imagem: Pintura de Pablo Picasso, "Guernica", 1937

Um texto poderoso e inquietante como o próprio quadro. Gosto!
ResponderEliminarTentei mandar-lhe uma fotografia pelo mail mas não acede. Como hei de fazer? Pode explicar-me?
Obrigada!
Beijo
Olá Acácia, enviei e-mail, (o mesmo do meu perfil), para te contactar (utilizei o que tens no Blogue Acácia Rubra. Beijinho
EliminarUm texto enorme!
ResponderEliminarE Picasso é Picasso.
Abraço
Obrigado Observador, abraço e bom domingo.
EliminarEssa conversa do "Armagedão" cheira-me a devaneio das testemunhas de Jeová... :)
ResponderEliminarDe resto, subscrevo o que os seus comentadores escreveram.
(risos) Obrigado.
EliminarTendo a minha maneira muito própria de “acreditar”, considero-me muito pouco religioso para os “critérios” tradicionais, talvez por isso o texto…
Confesso, igualmente, desconhecer o que defendem as testemunhas de Jeová…
Já eu conheço a "doutrina" delas de gingeira. Aqui na minha cidade já nem se atrevem a chatear-me, ou não fosse eu um "católico fundamentalista intolerante"...
EliminarOlá, Sam. Esta é a minha primeira visita. Gostei do que li. Gostei igualmente da foto ali ao lado do belo sol.
ResponderEliminarEmbora não seja grande apreciadora de Picasso, aguardo com muito interesse a exibição de alguns dos seus quadros na Galeria de Arte do Ontário, aqui em Toronto, já no próximo mês de maio.
Abraço e uma ótima semana.
Olá Catarina. Obrigado pela visita e pelas simpáticas palavras. Boa semana.
Eliminarpois ainda bem que regressou!
ResponderEliminarpor este texto e tudo o mais
um abraço
Obrigado Manuela, abraço e bom domingo.
EliminarQuando vi o quadro em Madrid fiquei siderada, não o imaginava tão grande! Mas o assombro daquele ataque foi passado à tela de forma magistral por Picasso!
ResponderEliminarO teu conto também veicula o assombro de alguém que não acredita na salvação a partir de um Deus que a batalha!
Abraço
Olá Rosa dos Ventos, sim, alguém que já não acredita, alguém que pensa ter provas de já nada valer a pena, ainda assim tenta deixar um aviso, mesmo sem conseguir ser credível, e sente o desespero de não ter meios/capacidade para passar a mensagem. Uma batalha perdida.
EliminarQuando vi o quadro em Madrid fiquei siderada, não o imaginava tão grande!
ResponderEliminarMas o assombro e o horror que Picasso nos transmite também passa por este conto!
O "mendigo", moribundo, não acredita na salvação a partir de um Deus que perdeu a batalha...
Abraço
O sentimento que tento transmitir é esse mesmo, de horror, de assombro de desespero por não passar a sua mensagem de engano, e a tristeza de já em nada acreditar. Abraço e bom domingo.
EliminarComo é meu costume não me obrigo a fazer comentários politicamente correctos e o pobre homem está coberto de razão, só que pode não ter palavras melhores para traduzir o seu sofrimento.
ResponderEliminarPor vezes, ponho-me a pensar como a espécie humana é tão irresponsável, até nas coisas mais simples como, no mínimo, deixar o mundo tão limpo como o encontrou e, com tantas capacidades e inteligência, é capaz de não mover uma palha para ajudar alguém da sua própria espécie quanto mais de outras espécies ;)...no entanto, espera que algures... exista uma entidade que venha compôr todos os imbróglios e desgraças que ela própria criou... sendo um dos primeiros, uma luta permanente de que o meu Deus é melhor que o teu ;)
Nos nossos dias, parece que quase nada mudou... andamos uns metros, retrocedemos kilómetros... nem é preciso que Deus venha lutar contra a sociedade humana... nós por cá, conseguimos arrasar com isto tudo... sozinhos ;)
Grande texto... dá que pensar e faz divagar ;)
Bjos
Olá Isa, penso que nesse ponto o Mundo proclama, mas já há muito que se afastou desse caminho…
EliminarO Homem aguarda sempre que o “ar” resolva, mas isso nem sempre acontece…
Obrigado pelas palavras, grande beijinho e bom domingo.
Vi-o em Madrid e achei-o brutal!
ResponderEliminar(Visitei em Barcelona o seu museu e apreciei, acima de tudo, a sua pintura inicial...)
O texto encaixa que nem uma luva no "Guernica".
Olá Rui,tenho a viagem a Barcelona em agenda… pelo menos agenda mental, e espero ter oportunidade de o fazer também, abraço e obrigado
EliminarTexto e pintura muito adequados.
ResponderEliminarGostei muito.
Boa semana. Bj
Obrigado Ana, grande beijinho e boa semana.
EliminarComeçaste bem, muito bem!
ResponderEliminar(mas aqui entre nós...não gosto de Picasso)
Um abraço
Olá São, obrigado. Picasso é complicado de interpretar, igualmente, ou se gosta ou não se gosta… eu tenho dias… esta tela sempre me impressionou… Abraço
EliminarSam, boa noite!
ResponderEliminarUm texto intenso capaz de nos fazer divagar e, que no seu conteúdo revela uma grande verdade, a indiferença do Homem pelo seu semelhante! De facto, não existe Deus algum, capaz de salvar uma humanidade tão inconsciente e egoísta.
Beijinho,
Ana Martins
Boa noite Ana, obrigado. O homem é mesmo assim… um misto de qualidades e defeitos… mas é tão bom, quando nós mais necessitamos, ter alguém que nos estenda a mão, beijinho Ana.
EliminarTão assustadoramente real...
ResponderEliminarmuito intenso.
amei
Beijo
Obrigado Bianca, beijo e tem uma óptima noite.
EliminarO homem(humanidade) e a sua loucura, o homem(humanidade) e a sua lucidez: ambas presentes, sempre.
ResponderEliminarO teu texto é forte e duro, tal como o é "Guernica"
Abraço
Olá Justine, boa noite, loucura/lucidez, bem e mal, amor e ódio, tal como dizes, e bem, faces da mesma moeda.
EliminarObrigado, é um quadro muito “poderoso”, impressiona e inspira. Abraço